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Posicionamento político de Cristãos

  • Foto do escritor: Lara
    Lara
  • há 20 minutos
  • 16 min de leitura

Dever moral e salvaguarda da liberdade religiosa


O cristão precisa refletir sobre fé, cidadania e estado laico. Se você é cristão, e, principalmente, cristão-espírita, têm a necessidade moral de se posicionar politicamente, orientando sua escolha de espectro político pelos valores de sua fé, como exercício de cidadania e como salvaguarda contra a perseguição religiosa.


A relação entre fé religiosa e vida política é uma das questões mais antigas e persistentes do pensamento ocidental. Desde a condenação de Sócrates à obediência às leis da pólis, passando pelo "Dai a César o que é de César”, registrado no Evangelho de Mateus 22:21, até os debates contemporâneos sobre laicidade, a humanidade tem se perguntado se o crente deve — e como deve — participar da organização da vida pública.


Os ideais democráticos do mundo não derivaram senão do próprio ensinamento do Salvador. - Chixo Xavier por Emmanuel, livro Alma e Luz

Os cristãos, incluindo aí os espíritas, têm não apenas o direito, mas a necessidade moral de se posicionarem politicamente, escolhendo seu espectro político à luz dos valores de sua fé. Essa participação é também uma salvaguarda contra a perseguição religiosa — desde que exercida no marco do Estado laico, cuja definição original nasceu, paradoxalmente, da luta de comunidades cristãs pela liberdade de consciência.


O Estado laico, em sua definição clássica, é aquele que não adota nem privilegia qualquer religião oficial, garante a liberdade de consciência e de culto a todos os cidadãos e mantém neutralidade diante das confissões religiosas. Essa fórmula, hoje consagrada em inúmeras constituições, tem sua matriz histórica mais influente nos Estados Unidos da América.


A Primeira Emenda à Constituição norte-americana, ratificada em 1791, estabeleceu dois princípios complementares: a Establishment Clause (o Congresso não fará lei que estabeleça uma religião) e a Free Exercise Clause (nem que proíba o livre exercício religioso). A motivação histórica é decisiva: as colônias americanas haviam sido povoadas, em grande medida, por comunidades religiosas que fugiam da perseguição na Europa — puritanos, quakers, batistas, presbiterianos e outras denominações protestantes que haviam sofrido discriminação e violência por parte de igrejas estatais. A memória dessas perseguições levou os fundadores a concluir que a única forma de garantir que nenhum grupo religioso voltasse a ser oprimido era impedir que o Estado adotasse uma religião oficial.


Nesse sentido, é preciso sublinhar um dado frequentemente esquecido: o Estado laico, em sua definição original, não foi uma invenção anticristã, mas uma conquista de vertentes cristãs. Roger Williams, pastor batista do século XVII e fundador de Rhode Island, já defendia a separação entre Igreja e Estado como forma de proteger tanto a pureza da fé quanto a liberdade de consciência. No século XVIII, batistas e presbiterianos da Virgínia lideraram a campanha contra o imposto religioso estatal, culminando no Estatuto da Virgínia para a Liberdade Religiosa (1786), redigido por Thomas Jefferson com o apoio decisivo de James Madison — cuja Memorial and Remonstrance (1785) é um dos documentos fundadores do argumento da não interferência estatal em matéria de fé. Em 1802, Jefferson respondeu à Associação Batista de Danbury com a célebre metáfora do "muro de separação entre Igreja e Estado" — dirigindo-se, não por acaso, a uma comunidade cristã que temia ser perseguida caso o Estado favorecesse outra confissão.


A lição histórica é clara: o Estado laico foi concebido como um escudo. Quando o Estado se compromete com a neutralidade, nenhuma confissão pode usar o aparato estatal para perseguir outra — e nenhuma minoria religiosa fica à mercê da maioria. Laicidade do Estado não significa proibição de manifestação religiosa nem mesmo em ambientes públicos, como por exemplo a presença de símbolos religiosos em prédios públicos. A defesa do Estado laico é, para os cristãos, uma defesa de si mesmos.


A tradição cristã contém fundamentos teológicos robustos para o engajamento político. O Sermão do Monte convoca os discípulos a serem "sal da terra e luz do mundo" (Mateus 5,13-14), o que implica influência sobre a sociedade; o apóstolo Paulo reconhece a autoridade política como instrumento de ordem e justiça (Romanos 13,1-7); e a tradição profética do Antigo Testamento — de Amós a Isaías — denuncia a injustiça social e cobra dos governantes o cuidado com o pobre e o órfão. O Cristianismo, em suas múltiplas vertentes, sempre sustentou que a fé não pode ser reduzida à esfera privada: as consequências públicas do Evangelho - justiça, misericórdia, dignidade humana - exigem tradução política.


A Doutrina Espírita orienta o homem a ser cidadão ativo e consciente. Há inclusive orientações espíritas diretas sobre o voto — a de escolher candidatos que sirvam ao bem comum, e não ao interesse próprio. Para a doutrina, não existe uma forma de governo "perfeita em si”, ela é relativa ao grau de amadurecimento moral de cada povo. O melhor governo é o que assegura ordem e liberdade ao mesmo tempo. Isso significa que a política é vista como reflexo do estado moral coletivo — e, por isso, o aperfeiçoamento das instituições depende do aperfeiçoamento das pessoas que as ocupam e as sustentam. A política é vista como campo de serviço e de prova. A doutrina espírita não despreza a política, pois ela é um dos campos onde os espíritos encarnados trabalham seu progresso. Ocupar cargo público, administrar, legislar — tudo isso pode ser exercido como caridade quando feito para o bem de todos. A corrupção, a demagogia e o apego ao poder são vistos como manifestações de imperfeição espiritual que cada um colherá pela lei de causa e efeito.


Em nosso relacionamento habitual com César — simbolizando o governo político — não nos esqueçamos de que o mundo é de Deus e não de César, a fim de que não sejamos parasitas na organização social em que fomos chamados a viver. - Chico Xavier por Emmanuel, livro Dinheiro

No Brasil, o exemplo mais notável de espírita que se posicionou politicamente é Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900), o médico dos pobres. Filiado ao Partido Liberal, foi eleito vereador no Rio de Janeiro em 1861 e reeleito em 1864; tornou-se deputado federal em 1867 e presidente da Câmara Municipal entre 1879 e 1880, cargo equivalente ao de prefeito. Como político foi abolicionista e defensor da liberdade. Bezerra de Menezes demonstra que o espírita que leva sua fé para a vida pública age sobre as estruturas sociais sem perder de vista os valores cristãos - liberdade, responsabilidade, fraternidade e caridade.


Outros exemplos enriquecem o quadro. Cairbar Schutel (1868-1938), farmacêutico e jornalista, fundador do jornal O Clarim, em Matão (SP), usou a imprensa como trincheira de defesa da doutrina espírita contra os ataques da Igreja Católica e da legislação repressiva. Eurípedes Barsanulfo (1880-1918), educador, fundou em Sacramento (MG) o Colégio Allan Kardec, pioneiro da educação espírita no Brasil, traduzindo em ação social concreta os valores da doutrina. E Francisco Cândido Xavier (1910-2002) exerceu influência moral imensa, lembrando que o posicionamento pode também assumir a forma de testemunho ético e de serviço desinteressado — um contraponto necessário ao ativismo.


Vale registrar o contexto persecutório que marcou o Espiritismo no Brasil. O Código Penal de 1890 criminalizou a prática do espiritismo, e os espíritas foram alvo de repressão policial e de campanhas difamatórias por décadas. A história do movimento espírita brasileiro é, em boa medida, a história da luta por reconhecimento e liberdade — o que reforça, empiricamente, o argumento de que a ausência de posicionamento político deixa a comunidade religiosa exposta.


O argumento da necessidade de se posicionar é duplo. Em primeiro lugar, há um argumento de omissão: se os cristãos se abstêm da vida pública, o espaço político será preenchido por outras forças, que não necessariamente respeitarão os valores cristãos nem a liberdade religiosa. A história confirma que o silêncio político das comunidades religiosas raramente as protegeu; mais frequentemente, deixou-as vulneráveis. Em segundo lugar, há um argumento de identidade: escolher um espectro político à luz dos valores cristãos não é impor fé ao Estado, mas exercer a cidadania de forma coerente com a própria consciência, votando, por exemplo, em candidatos e programas que respeitem a vida, a família, a dignidade do trabalho e a liberdade de consciência.


O argumento da perseguição merece análise cuidadosa. O cristianismo é amplamente apontado por organizações internacionais e relatórios globais como a comunidade religiosa mais perseguida do mundo em número de pessoas afetadas. Estima-se que mais de 390 milhões de cristãos sofram altos níveis de perseguição, discriminação, violência ou restrições por causa da fé.


Historicamente, as comunidades cristãs que mais sofreram perseguição foram justamente aquelas sem representação e sem voz no espaço público. Os cristãos primitivos no Império Romano, os protestantes dissidentes na Europa das igrejas estatais, os cristãos sob regimes totalitários dos séculos XX e XXI. A presença política organizada funciona, nessa perspectiva, como salvaguarda: um grupo religioso com capacidade de influenciar a legislação e a opinião pública dispõe de mais instrumentos para defender sua liberdade de culto, sua objeção de consciência e seus direitos institucionais. Não se trata de afirmar uma perseguição iminente como fato consumado, mas de reconhecer que a liberdade religiosa é um bem que precisa ser defendido ativamente, e não apenas invocado.


É preciso, contudo, registrar as tensões que o cristão enfrenta para se posicionar politicamente. Primeiro, muitos pensam que não há um único espectro político a que os cristãos podem se afiliar. Mas há. Claro que cristãos podem, legitimamente, divergir sobre políticas econômicas, sociais e ambientais, por exemplo. Porém, como as escolhas são feitas com base em valores que o homem carrega intimamente, defender ideologias que pregam ações como aborto, discriminalização de drogas, não punição aos crimes cometidos e políticas de subversão de conceitos biológicos fundamentais, não é compatível com os preceitos cristãos. Segundo, o engajamento cristão deve respeitar o Estado laico e o pluralismo, a meta não é a teocracia, mas a influência moral exercida pela persuasão e pelo exemplo. Terceiro, a defesa da liberdade religiosa deve ser universal — vale para o cristão, o judeu, o budista, o ateu e todas as demais vertentes religiosas; quem defende a liberdade apenas para si repete a lógica do perseguidor.


O Espiritismo, vertente do cristianismo, codificado por Allan Kardec na França do Segundo Império, nasceu em um momento em que o materialismo, assim como hoje, se faz fortemente presente na humanidade. Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), discípulo de Pestalozzi  (o maior pedagogo de todos os tempo), educador e membro de sociedades científicas, construiu uma doutrina de racionalidade, de progresso, uma doutrina universal. Em Obras Póstumas, há um capítulo intitulado "Liberdade, Igualdade, Fraternidade", no qual Kardec afirma que essas três palavras representam, por si sós, o programa de toda uma ordem social que realizaria o mais absoluto progresso da humanidade, se o princípio que elas traduzem pudesse receber integral aplicação. Se por um lado Kardec reconhecia e respeitava os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade consagrados pela Revolução Francesa, mas não alcançados; por outro lado, criticava os excessos violentos do período revolucionário, como por exemplo o Período do Terror, e a subsequente onda de pensamento puramente materialista no século XIX que falhou em estruturar a reforma social em bases sólidas de amor e espiritualidade.


Kardec não exerceu mandato político nem se filiou a partidos — viveu sob o autoritarismo de Napoleão III, em um ambiente em que a Igreja Católica detinha enorme poder —, mas seu posicionamento foi inequivocamente político no sentido amplo ao defender a liberdade de pensamento e de consciência, combater o materialismo, o dogmatismo e a intolerância, e propor uma reforma moral da sociedade pela educação e pela caridade.


Importante que o cristão compreenda a mensagem de Jesus e se esforce no aprimoramento intelectual e moral. Todavia, é fundamental compreender os conceitos de materialismo e progressismo, para optar por seu posicionamento político de forma segura e responsável. Lembre que toda criatura humana é livre para escolher, porém é escrava das consequências de suas escolhas, tanto na vida material quanto na vida espiritual; as consequências repercutem por todas as existências na matéria através da reencarnação.


Materialismo quer dizer a doutrina que defende somente a existência da matéria — que tudo o que é real é físico, que não há alma, espírito, Deus nem vida após a morte.


O progressismo - ou cultura woke, como ideologia contemporânea, não é simplesmente querer progresso. Progressismo é um sistema de valores com pressupostos que tocam exatamente os pontos onde o cristianismo tem convicções opostas.


Materialismo e progressismo colidem frontalmente com o cristianismo de formas diferentes, mas importantes.


Contra o materialismo filosófico, o cristianismo afirma que a realidade tem dimensão espiritual. No princípio, criou Deus os céus e a terra (Gênesis 1.1). Se só existe matéria, então a oração é um monólogo, o milagre é impossível, a consciência é só bioquímica e a morte é o fim absoluto. Jesus, porém, ensinou o contrário: o homem é espírito, alma e corpo, a vida continua após a morte. A Doutrina Espírita nos mostra que somos espíritos imortais, vivendo experiências na matéria, através da reencarnação, para evoluirmos. São cosmovisões mutuamente excludentes — uma delas está errada, e não há como conciliá-las. Contra o materialismo prático, os evangelhos são diretos. "Não ajunteis tesouros na terra... mas ajuntai tesouros no céu” (Mateus 6.19–20) e "Ninguém pode servir a dois senhores... não podeis servir a Deus e a Mamom (Mateus 6.24). O cristão é ensinado a ser mordomo, não dono. Tudo que possui pertence a Deus, o homem é usufrutuário; a generosidade é mandamento, não opção. O consumismo trata a vida como acumulação; Jesus disse "Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui” (Lucas 12.15).


Agora, com o progressismo a incompatibilidade é mais profunda. Vejamos:


1. A fonte da verdade é moral: O progressismo assume a autonomia moral do indivíduo, ou seja, o que é certo e errado é definido pela evolução social ou pela vontade coletiva — o que a maioria aceitar hoje é moral, e o que era moral ontem pode ser descartado. O cristianismo afirma que a moral tem fonte transcendente e objetiva. O cristão espírita sabe que a Lei de Deus está inscrita na consciência, os católicos e protestantes sabem que os mandamentos de Deus estão escritos no coração (Romanos 2.15), e são válidos em toda época. Para o cristão, a vontade da maioria pode estar errada — a Bíblia está cheia de exemplos de sociedades inteiras que normalizaram o que Deus condena. Essa é a incompatibilidade mais profunda. Para a Doutrina Espírita a verdade nunca é apenas uma questão intelectual — é uma realidade moral. Saber o que é verdadeiro e ser moralmente bom são duas faces da mesma jornada. É exercer a justiça sem ódio, a inclusão sem dissolução do indivíduo, e a transformação social começando pela própria transformação individual.


2. A visão do ser humano: O progressismo costuma ver o mal como resultado de estruturas sociais defeituosas, e mudando as leis, o sistema de governo e as instituições, o ser humano se aperfeiçoa. O cristianismo ensina a doutrina do pecado e da responsabilidade: o problema humano é interior — "o coração é mais enganoso que todas as coisas" (Jeremias 17.9) — e nenhuma engenharia social resolve isso; a única solução é a redenção. Jesus não disse "mudai as estruturas" primeiro; disse "arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mateus 4.17) e "Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. São diagnósticos opostos da condição humana: reforma externa vs. transformação interna. Somente a transformação íntima é capaz de modificar as estruturas sociais, porque melhorando a si mesmo o homem melhora a coletividade.


3. O sentido de liberdade: Para o progressismo, liberdade é a ausência de restrições, é poder realizar todos os desejos e identidades sem impedimento. Para o cristão a liberdade é o que Jesus ensinou - liberdade é libertação do pecado para a obediência. "A verdade vos libertará" (João 8.32) e "aquele que comete pecado é servo do pecado" (João 8.34). Ainda mais radical, Jesus define o caminho como autonegação: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Lucas 9.23). A ideia de que a realização pessoal vem da satisfação dos desejos é, para o cristianismo, precisamente a escravidão que ele veio libertar. O que a Doutrina Espírita oferece é entendimento da Lei de Deu, responsabilidade pessoal, caridade como método e o progresso como destino.


4. A reengenharia da família e do corpo: O progressismo vê o corpo, o sexo e a família como construções modificáveis; o cristianismo vê o corpo como templo (1 Coríntios 6.19) e o homem e a mulher como criados "à imagem de Deus" (Gênesis 1.27) — uma ordem dada na criação, não um contrato social. Nesse ponto, as políticas progressistas de gênero, sexualidade e aborto não são vistas como um "avanço", mas como uma rebelião contra o design do Criador. A Doutrina Espírita nos ensina que a família é a base de sustenção da sociedade, que o Espírito é a pessoa real — o corpo é instrumento temporário, ora encarnamos como homem, ora como mulher, de acordo com as nossas necessidades evolutivas. A lei suprema é a caridade — o acolhimento e a misericórdia com a pessoa prevalecem sobre o julgamento do comportamento.


5. A sacralidade da vida: O cristão que fundamenta sua ética nos ensinamentos de Jesus entende a vida humana como sagrada desde a concepção (Salmo 139.13–16; Jeremias 1.5). O progressismo, ao defender o aborto como direito, eleva a autonomia da mulher acima do valor do feto. Para o cristão, há aqui um princípio inegociável: nenhuma autonomia individual pode autorizar o que Deus criou como imagem dele. Lembrando que Jesus disse que não veio revogar a lei, mas dar-lhe cumprimento, e isso inclui o “não matarás”. Para a Doutrina Espírita o que reflete a imagem de Deus no ser humano é o espírito: a inteligência, a liberdade, a capacidade de amar e de evoluir moralmente. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec explica que o homem foi feito à imagem de Deus na medida em que possui, em germe, os atributos da divindade — a consciência, a razão, o livre-arbítrio — que o distinguem da matéria e o tornam capaz de progredir até a perfeição. Praticar o aborto é impedir que um espírito tenha a oportunidade de se aprimorar, de se corrigir e reajustar perante a Lei de Deus.


Cristãos devem ter a convicção de que a fé tem consequências públicas. O Estado laico, em sua definição original, forjada por comunidades cristãs nos Estados Unidos para escapar da perseguição, é o marco que torna possível esse engajamento sem opressão, garantindo que ninguém será perseguido por sua crença e que ninguém imporá sua crença aos demais.


Posicionar-se politicamente à luz dos valores da própria fé não é, portanto, uma ameaça à laicidade, mas seu exercício pleno. É a cidadania consciente de quem sabe que a liberdade religiosa é um bem conquistado, que precisa ser defendido, e que a omissão é a forma mais silenciosa de perder essa conquista. O desafio para os cristãos é engajar-se sem instrumentalizar a fé, defender a própria liberdade defendendo a liberdade de todos, e lembrar que, na política como na fé, o critério último é o amor ao próximo.


Nem mesmo Jesus se furtou à política. Ele se recusou a ser capturado pelas categorias políticas do seu tempo. Jesus viveu na Judeia ocupada por Roma, sob o tetrarca Herodes Antipas na Galileia e o governador Pôncio Pilatos na Judeia. O cenário político do século I era um campo de forças entre Romanos, Zelotes, Fariseus e Saduceus. E havia ainda a expectativa generalizada de um Messias político — um rei davídico que restauraria Israel e derrubaria o jugo romano. Jesus não podia ficar de fora desse cenário. Toda pergunta que lhe faziam — sobre tributo, autoridade, realeza — era uma pergunta política. A questão é o que ele fez com elas.


Há um padrão claro nos evangelhos de Jesus desviando-se das ofertas de poder político. Recusou ser coroado rei após a multiplicação dos pães: "Jesus, percebendo que queriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se" (João 6.15). Na tentação, recusou os reinos do mundo oferecidos por Satanás (Mateus 4.8–10) — uma recusa simbólica de conquistar o poder pelos meios do mundo. Na questão do tributo, deu a resposta que desmontou a armadilha: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22.21). Nem endossou a dominação romana, nem aderiu à revolta zelote. Ordenou a Pedro que guardasse a espada no Getsêmani: "todos os que lançam mão da espada, à espada perecerão" (Mateus 26.52) — recusa explícita do caminho da insurreição armada. Diante de Pilatos, respondeu à acusação de realeza com: "O meu reino não é deste mundo" (João 18.36).


Porém, quem conclui que Jesus foi neutro ou só espiritual esbarra em fatos incômodos. Ele foi executado como criminoso político. A acusação afixada na cruz era política — "Rei dos Judeus" — e ele foi crucificado entre dois lestai, termo grego que designava insurgentes, não ladrões comuns. Barrabás, o prisioneiro libertado em seu lugar, era um rebelde envolvido em insurreição (Marcos 15.7). O Império não crucificava quem era inofensivo. Ele confrontou o poder estabelecido de frente, expulsou os cambistas do templo (Mateus 21.12–13), chamou Herodes de "aquela raposa" (Lucas 13.32) e denunciou publicamente a hipocrisia das elites religiosas. Seu anúncio do Reino de Deus era, em si, uma declaração política de outra ordem. Dizer que Deus é Rei é dizer que nenhum César, Herodes ou partido é senhor absoluto. O Reino que ele anunciava era uma ordem social alternativa: inversão de status ("os últimos serão os primeiros"), inclusão de marginalizados, perdão, fraternidade e amor. Ele se posicionou concretamente ao lado dos excluídos: mulheres, samaritanos, leprosos, cobradores de impostos, prostitutas — uma opção social com consequências políticas inevitáveis. O Magnificat atribuído a Maria já soava como manifesto: "Derrubou dos tronos os poderosos e elevou os humildes" (Lucas 1.52).


Jesus não se furtou à política porque isso era impossível — e ele não tentou. O que ele fez foi transcender o binômio do seu tempo: não foi zelote (revolução armada), não foi colaboracionista (acomodação a Roma), não foi saduceu (poder religioso como negociação). Ele recusou ser o Messias político que esperavam — e, exatamente por isso, foi morto como ameaça política.


O que isso significa para o cristão de hoje é uma postura que deve convergir com o que Jesus ensinou e exemplificou. Nem retirada do mundo porque Jesus confrontou o poder e se posicionou pelos vulneráveis, perseguidos, sofredores, doentes do espírito. Nem idolatria do poder porque ele recusou a espada, a coroa e os reinos do mundo material; mostrou que o Reino de Deus é construído dentro de nós através do aprimoramento moral. O que Jesus mostrou foi a lealdade a Deus acima de qualquer Estado. Jesus mostrou a necessidade de servir ao próximo, de escolher a verdade e de cuidar e auxiliar os necessitados de toda ordem - os últimos da fila.


Lembre-se de que todos somos livres para fazer as nossas escolhas, incluindo escolhas políticas, mas ninguém escapa das consequências das próprias escolhas. O cristão-espírita sabe que as consequências são inexoráveis e refletem-se também no plano espiritual.


Não há como ficar neutro. Lembre-se do que Jesus disse: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. (Apocalipse 3:15-16).  A doutrina espírita condena menos o erro do que a mediocridade consciente. O morno é aquele que assiste à vida passar: crê "mais ou menos", ama "mais ou menos", caridade "quando sobra tempo", reforma íntima "depois eu começo". Ele não é mau o bastante para se reconhecer necessitado, nem bom o bastante para progredir. E é exatamente por isso que é tão difícil de salvar: quem se julga morno e confortável não sente necessidade de mudança — e a doutrina ensina que a primeira condição do progresso é reconhecer a própria imperfeição. O "deus" que vomita não é um Deus irado e vingativo — é a Lei de Justiça operando: a morna consciência, que recebeu luz e não a usou, gera consequências que a obrigarão a reencontrar o caminho. O "vômito" é, na linguagem espírita, a separação e o sofrimento expiatório que sacodem a alma de sua letargia: muitas vezes é a dor que desperta o morno, quando a comodidade não o fez. O morno é advertido a escolher — a sair da indecisão e a abrir a porta ele mesmo. Ninguém abre a porta por ele: o livre-arbítrio é intransferível.


Segundo o Espiritismo, "nem frio nem quente" descreve o espírito que estacionou na mediocridade — que conhece a verdade e não a pratica, que crê sem fervor, que ama sem obras, que não exerce o livre-arbítrio com bom senso e racionalidade. A passagem ensina que a indiferença é, na escala da evolução, mais grave que a ignorância, porque a ignorância procura a luz enquanto a mornidão a dispensa. O "vomitar-te-ei da minha boca" é a consequência natural — a dor que vem separar a alma da falsa segurança, para que ela, uma vez despertada, aprenda o que a comodidade lhe roubou: a urgência de progredir.


A boa notícia é que ninguém é vomitado para sempre. A expiação é pedagógica, o sofrimento é transitório e o convite do Cristo continua, Ele permanece batendo em  nossa porta, chamando cada consciência, até que ela acorde.


Cristão, posicione-se politicamente de acordo com os valores que Jesus ensinou e exemplificou. Opte pela verdade, não por meias verdades que iludem e nem pelas mentiras que enganam.


Escolha sim o partido político que mais se aproxima dos valores cristãos.

 
 
 

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