VIOLÊNCIA
- Lara

- há 3 horas
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A pacificação de nossas tempestades íntimas

Observamos no mundo de hoje um recrudescimento da violência e do mal. Basta que olhemos ao redor. Refletir nessa questão é compreender a necessidade de superação desse estado belicoso da humanidade.
A jornada evolutiva do Espírito imortal é marcada por um trânsito contínuo entre a animalidade primitiva e a angelitude. Nesse processo teleológico, ou seja, do propósito da existência, o ser humano encontra-se em um estágio de transição, no qual o desenvolvimento intelectual muitas vezes suplanta o avanço moral.
A violência, a ira e a cólera, manifestações ainda latentes na psique humana, representam atavismos de épocas em que o instinto de conservação e a lei do mais forte ditavam as regras da sobrevivência.
Contudo, à luz da Doutrina Espírita, o homem é um ser perfectível, destinado à harmonia cósmica. A persistência na violência não é apenas um erro social, mas uma profunda infração às Leis Divinas, gerando desdobramentos dolorosos para a economia da própria alma. É urgente a autossuperação da agressividade, como forma de pacificação íntima, pois esse é o único caminho viável para a libertação espiritual e a construção de um destino ditoso.
Para compreender a violência humana, é necessário recorrer à ontologia espírita apresentada em O Livro dos Espíritos. Kardec esclarece que os instintos são forças naturais e necessárias nos estágios iniciais da evolução, mas que devem ser submetidos ao crivo da razão e do senso moral à medida que o Espírito amadurece.
Ao tratar das paixões, Kardec questiona os Espíritos Superiores se elas seriam más em si mesmas. A resposta é categórica: as paixões são alavancas que multiplicam as forças do homem; o mal reside no seu excesso e na direção que se lhes dá. A ira e a violência são, portanto, o desvirtuamento da energia vital, o momento em que o princípio animal sobrepuja a natureza espiritual.
A Doutrina Espírita não endossa o determinismo biológico ou o fatalismo moral. O homem violento não é vítima de sua natureza, mas um Espírito que ainda não exercitou a vontade para domar seus impulsos.
Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más. - Allan Kardec, O Livro dos Espíritos
A violência íntima é, assim, o principal inimigo a ser combatido na arena da consciência. A pacificação íntima é imperativo moral para o melhoramento da criatura humana.
A superação da ira encontra seu roteiro metodológico em O Evangelho Segundo o Espiritismo. Na exegese das máximas do Cristo, Kardec dedica o Capítulo IX - “Bem-aventurados os mansos e pacíficos” - à análise da cólera e da paciência.
A cólera é descrita não apenas como uma falha de caráter, mas como uma verdadeira patologia da alma que cega a razão e precipita o indivíduo em ações de que fatalmente se arrependerá. O Espírito Hahnemann, em mensagem constante neste capítulo, adverte que a irritação não resolve problemas, mas os agrava, envenenando o corpo físico e desestruturando o perispírito. A violência rebaixa a frequência vibratória do ser, desconectando-o da assistência dos Bons Espíritos e associando-o a entidades de natureza inferior, que se comprazem no conflito.
Todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao Espírito. A não ser assim, onde estariam o mérito e a responsabilidade? O homem deformado não pode tornar-se direito, porque o Espírito nisso não pode atuar; mas, pode modificar o que é do Espírito, quando o quer com vontade firme. - Allan Kardec / Hahnemann, O Evangelho Segundo o Espiritismo
A pacificação íntima, portanto, não é sinônimo de passividade covarde, mas de um autocontrole ativo e vigoroso. É a capacidade de absorver o impacto da agressividade alheia sem reverberá-la. O perdão das ofensas e o amor aos inimigos deixam de ser meros conselhos poéticos para se tornarem mecanismos científicos de profilaxia espiritual, rompendo os ciclos de ódio que aprisionam algozes e vítimas ao longo de sucessivas reencarnações.
A recusa em pacificar o próprio íntimo gera consequências inevitáveis, detalhadamente mapeadas no Livro O Céu e o Inferno. Na primeira parte da obra, ao formular o Código Penal da Vida Futura, Kardec demonstra que a justiça divina atua de forma imanente: a punição não é um castigo externo imposto por um Deus vingativo, mas a consequência natural e automática da infração à lei de harmonia.
O Espírito violento, ao desencarnar, depara-se com o inferno que construiu em sua própria mente. A ira cristaliza-se no perispírito - o corpo semimaterial da alma, tornando-o denso e opaco. Essa densidade aprisiona o Espírito nas regiões inferiores do mundo invisível, onde ele continua a vivenciar, de forma ampliada, as tormentas de sua própria agressividade. O sofrimento é estritamente proporcional à gravidade das faltas e ao grau de apego às paixões inferiores.
Léon Denis, em sua obra magistral O Problema do Ser, do Destino e da Dor, aprofunda essa mecânica. Denis argumenta que a alma é o obreiro de seu próprio destino. Cada pensamento de ódio, cada ato de violência, tece a teia de provações futuras. A lei de causa e efeito ou de ação e reação, determina que o agressor de hoje será o sofredor de amanhã, não por retaliação divina, mas pela necessidade de reajuste pedagógico. A dor, nesse contexto, surge como o aguilhão necessário para despertar a consciência adormecida na ilusão da força bruta, forçando o Espírito a buscar a mansidão que outrora desprezou.
Se a Codificação e a filosofia de Léon Denis fornecem o arcabouço teórico, a vasta obra mediúnica do médium Francisco Cândido Xavier oferece o "como fazer" no cotidiano. Através do Espírito Emmanuel, Chico Xavier popularizou o conceito de Reforma Íntima, um processo contínuo de autoanálise e disciplina moral para o autoaprimoramento.
Entendamos, meus amigos, / O combate à violência, / Tem começo em nossa casa, / Nos gestos de paciência.- Chico Xavier por Cornélio Pires, Livro Caminhos da Vida
Em obras como Pensamento e Vida e Caminho, Verdade e Vida, Emmanuel ressalta que a violência começa no pensamento. A ira é uma tempestade mental que destrói as sementes do bem. O autor espiritual insiste na necessidade da vigilância constante e do trabalho no bem como antídotos contra a agressividade. A paciência, ensina Emmanuel, é a caridade da alma.
Ademais, pela lavra do Espírito André Luiz, em obras como Ação e Reação e Mecanismos da Mediunidade, compreende-se a psicossomática da violência. A cólera emite raios mentais destrutivos que desorganizam as células do corpo físico, predispondo o indivíduo a enfermidades severas como doenças cardiovasculares, gástricas e neurológicas. No âmbito espiritual, a violência cria formas-pensamento sombrias que vampirizam a energia do próprio emissor. Superar a violência é, sob essa ótica, uma questão de saúde integral — física, mental e espiritual.
A violência, a cólera e a ira são incompatíveis com o estágio evolutivo que a humanidade terrestre é chamada a alcançar. A transição do planeta Terra de um mundo de provas e expiações para um mundo de regeneração exige, impreterivelmente, a transição do homem velho, belicoso e instintivo, para o homem novo, pacífico e racional.
A pacificação íntima não ocorre por milagre ou graça imerecida, mas por um esforço hercúleo de educação da vontade. Exige do indivíduo a coragem de enfrentar seus próprios abismos, de silenciar diante da ofensa, de perdoar o imperdoável e de substituir a reação agressiva pela ação construtiva.
As consequências de seguir no caminho do erro são o prolongamento indefinido do sofrimento, a retenção nas zonas umbralinas do mundo espiritual e o retorno a existências corporais marcadas pela dor expiatória.
Em contrapartida, a vitória sobre a violência interior garante a libertação dos grilhões do carma doloroso, conferindo ao Espírito a paz inalterável que o Cristo prometeu àqueles que conseguem instaurar o Reino de Deus dentro de si mesmos. Como assevera o Espiritismo, o maior herói não é aquele que conquista cidades ou subjuga povos, mas aquele que consegue vencer a si mesmo.
Jesus, o Bom Pastor, nos ensinou o caminho. Devemos nos perguntar se queremos seguí-lo.



Boa tarde, Lara. Excelentes reflexões, ótimo artigo. 😊